O sociólogo Daniel Hirata, assessor especial do Ministério da Justiça e Segurança Pública do governo Lula (PT), afirmou que a queda nos assassinatos no Brasil não contradiz o aumento da sensação de insegurança. Para ele, a percepção de vulnerabilidade da população está ligada à influência de organizações criminosas sobre territórios urbanos e aos crimes patrimoniais, como roubos de celulares.
Hirata destacou que as mortes violentas intencionais caem desde 2018 por fatores como o envelhecimento da população e a dinâmica de enfrentamento entre grupos criminosos. No entanto, a capacidade logística e operacional desses grupos aumentou, assim como a diversificação de seus mercados de atuação. Ele também afirmou que o crime patrimonial, especialmente o roubo de celulares, impacta fortemente a percepção de segurança.
O assessor apontou que dezenas de milhões de pessoas no país convivem com organizações criminosas em seus bairros. O controle territorial armado, segundo ele, confisca prerrogativas estatais, como regulação de mercados e mediação de conflitos, afetando a rotina das pessoas. Ele citou exemplos como barricadas, justiçamento informal e monopolização de setores como gás, água e internet.
Para retomar o controle territorial, Hirata listou cinco dimensões: atuação policial de inteligência antes das operações; urbanismo social, com abertura de vias e melhoria da infraestrutura; acesso à Justiça; integração econômica; e políticas focadas na primeira infância. Ele criticou o modelo das UPPs, afirmando que houve predomínio da atuação policial e pressa na implementação, o que prejudicou a confiança da população.
Sobre a letalidade policial, que continua crescendo, Hirata disse que o problema é histórico e decorre de um equívoco que opõe controle do crime e respeito aos direitos humanos. Ele defendeu que a segurança deve ser feita dentro dos parâmetros legais, com supervisão e responsabilização. Para ele, policiais brutais muitas vezes também são corruptos, o que favorece a penetração do crime organizado em instituições públicas.
O assessor também comentou a baixa taxa de esclarecimento de homicídios no Brasil, inferior a 40%. Ele defendeu investimentos em infraestrutura nas polícias científicas e nos Institutos Médicos Legais, além da valorização profissional dos peritos. Por fim, Hirata afirmou que a redução dos assassinatos em alguns lugares pode estar ligada ao aumento das capacidades do crime organizado, que, ao se profissionalizar, evita mortes violentas para não atrair atenção sobre seus negócios legais.
