Servidor do Banco Central atuou na tentativa de venda do Letsbank ao Nubank
A Polícia Federal obteve diálogos que indicam a participação de um servidor do Banco Central (BC) na tentativa de intermediar a venda do Letsbank, braço do Banco Master, para o Nubank. O funcionário, Paulo Sérgio Neves de Souza, era chefe adjunto do Departamento de Supervisão Bancária da autarquia. O negócio não foi concluído.
As mensagens fazem parte da terceira fase da Operação Compliance Zero, que investiga a suspeita de cooptação de servidores do BC pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Paulo Sérgio e Belline Santana, ex-chefe do departamento, foram afastados de suas funções. Eles são suspeitos de receber propina em troca de informações internas sobre a fiscalização do Master.
Segundo apuração do próprio BC, Paulo Sérgio teria recebido cerca de R$ 8 milhões. Belline, por sua vez, teria recebido pelo menos R$ 4 milhões. Ambos negam a prática de atos ilícitos.
Em um dos diálogos, de 25 de outubro de 2024, Paulo Sérgio escreve a Vorcaro que havia interessados no Letsbank. Ele cita o Nubank e menciona a necessidade de reabrir um limite na plataforma. Vorcaro responde que conversou com o CEO do Nubank, David Vélez, mas que as negociações não avançaram com o CFO.
O servidor afirma que o Nubank estava interessado no Letsbank como opção para obter licença bancária. No dia seguinte, ele retorna com condições: um limite de R$ 5 bilhões na plataforma. Vorcaro responde: “Ótimo”.
Em relatório sigiloso, a PF afirma que a conduta de Paulo Sérgio era incompatível com sua função, pois ele atuava em defesa dos negócios do banqueiro. A defesa de Paulo Sérgio diz que a intermediação foi solicitada pelo diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, e que o procedimento era normal e de conhecimento da diretoria.
O Nubank declarou que recebe propostas regularmente e que analisa cada caso com critérios internos. A instituição afirmou que declinou a proposta de aquisição do Letsbank. A negociação não avançou e, em julho deste ano, o Nubank anunciou a compra do Banco Porto Real de Investimentos.
Vorcaro tentou vender o Letsbank para o ex-sócio Maurício Quadrado, mas o BC vetou o negócio em setembro de 2025. O Letsbank foi liquidado junto com o Master. A defesa de Belline afirma que ele não cometeu irregularidades e que está à disposição da PF para novos esclarecimentos.
